quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cap 5 Ascendentes de Joana José Pedro Vianna cont 2


Cap José Pedro Vianna


Digno Bellatori et Illustrissimo Viro
Esta saudação acima foi proferida por um dos oficiais da Guarda Nacional ao condecorar José Pedro Vianna. Foi uma analogia ao valente Conde Odoário, o repovoador das terras de Chaves e da Galiza Histórica na idade média, que também era reconhecido por sua bravura. Na ocasião foi mencionado que uma de suas características era seguir o ditado de que grandes coisas não se fazem por ímpeto, mas pela junção de pequenos atos. Foi louvada sua dedicação no dia a dia com firmeza, suavidade e determinação, que com a pertinácia semelhante a de um samurai, conquistou o respeito e papel de líder das hostes brasileiras.  E relembradas algumas de suas ações, comandos  e hospitalizações reportadas em sua fé de ofício, bem como o louvor do quartel general por sua calma, bravura  e sangue frio e o louvor de Sua Majestade o Imperador aos oficiais e praças das jornadas de Dezembro. Este relatório é incompleto pois ele havia combatido em Tuiuti, Curuzu e Curupaiti em 1866 conforme o diploma da Ordem da Rosa.




Observe-se que os postos e a promoção na Guarda Nacional Imperial até o posto de capitão eram galgados por eleição na base. Assim José Pedro, por seu perfil nato de líder alcançou estes postos de comando na Campanha do Paraguai. Essa sua conquista se deu também por premiação aos comandados, práticas exemplares em combate, palavras e pensamentos dirigidos aos soldados que foram expressos em escritos que foram mantidos nos arquivos de minha mãe, Iracema. Lá descobri algumas reflexões preciosas deste bisavô que ainda me parecem úteis para quase todas as situações que requerem liderança na vida. Estes legados de meu bisavô me estimularam sempre a estudar o fenômeno da liderança e a perseguir pesquisas científicas com alguns de meus melhores orientados que resultaram em publicações de sucesso.

José Pedro havia preparado uma rotina para seus comandados já que não havia ainda uma n Força Armada Brasileira
  que é exibida abaixo em versão reconstituída.


Ele também recriara um código moral baseado no Mos Maiorum romano que o fe muito popular enre os subordinados.






Resgatados alguns tópicos  das suas reflexões, fragmentadas e semi-destruídas, reconstruí seus pensamentos, adaptando-os à ortografia atual,  como estão descritos e comentados a seguir.
1.       Recordem todos no caminho da espada que o atalho para o coração dos homens se faz através do estômago.
 Seu batalhão ainda em Sergipe teve a influência de um comandante que os doutrinava usando, além dos conhecidos manuais de instrução da Guarda, um antigo manual dos legionários romanos. Dizia ele que os avanços tecnológicos recentes, ocorridos na Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865, haviam tornados obsoletos vários métodos napoleônicos de combate. Por conseqüência era necessário voltar aos fundamentos  para redefinir as formas de atuação em  teatros de operação. Isto era ecoado com muito gosto por toda a força pois Napoleão era odiado nestes meios como um inimigo execrável.
2.         Cuide sempre de seu armamento, de seu fardamento, mas sobretudo cuide de seu calçado. Este deve ser bem ajustado ao pé, com o couro interno mantido o mais macio possível e curtido.  Visite com freqüência o sapateiro  para garantir que os cravo da sola  estejam sempre novos, sem ferrugem. Mantenha os calçados  sempre bem engraxados para proteger os pés da umidade em conjunto com algum proteção de papel  jornal para os campos encharcados.
 Esta recomendação sobre sapatos foi amplamente encampada por meu pai, Antonio FS Quintella, que vinha de uma formação jesuíta sólida que enfatizava também este cuidado pessoal diário. Meu pai, como grande latinista que era, enriquecia esta regra, ressaltando que os antigos romanos, especialmente para ações de reconhecimento de terreno  – em que José Pedro era especialista-  influenciaram as tropas da Guarda fazendo com que  as solas fossem ranhuradas a canivete, para evitar derrapagens.  As táticas de guerra estavam cada vez mais tendendo a valorizar a infantaria em detrimento da cavalaria. Por isto estas anotações de José Pedro eram muito bem recebidas. Diziam seus superiores,  que em seu detalhismo solicitava aos sapateiros do batalhão, algumas vezes, para certas condições do terreno, que aplicassem travas afiadas, que tinham dupla função. Primeiramente garantir aderência firme ao solo, bem como aportar tração extra quando o caminho está saturado de lama ou sangue. Secundariamente  poderiam servir como elemento surpresa de forte  impacto  perfuro-contundente, tanto no combate, quanto em desacordos de taberna.
3.        Mantenha sempre o seu  uniforme em  ótimo estado e o seu semblante luminoso. Um exército vitorioso tem o moral, a mente  e  a aparência sempre dignos
Sua  postura cuidados com a maneira de vestir-se e se apresentar eram proverbiais. Não apenas cuidava bem de suas roupas, mas também  cuidava de apresentar um  porte elegante  ao ficar de pé, ao sentar-se e ao caminhar. Este apuro se transmitiu para muitos membros da família que foram informados de sua história e pensamentos, sendo reforçado por  mais de um século e meio por seus descendentes e colaterais, como meu pai que o admiravam.




Foto do Campo do Lago Tuiuti, o maior combate da Guerra do Paraguai e da América Latina. em 1866, nos pântanos e matagais paraguaios após as batalhas do Passo da Pátria e do Estero Bellaco (2 de maio), e que desequilibrou definitivamente a luta em favor dos aliados, após seis horas de luta entre cerca de 50 000 combatentes. As baixas paraguaias foram superiores a  75% (mortos 50%) do contingente de 24000 e as brasileiras sob comando de Osório em conjunto com forças da Argentina e Uruguuai sob Mitre e Venancio Flores foram de apenas 15% de mortos. O campo de batalha era limitado Estero Bellaco ao sul, o Estero Rojas (onde JoséPedro atuou)  e a lagoa Tuiuti ao norte, uma mata fechada e a Lagoa Pires a oeste, e uma vasta região pantanosa a leste



4.       Aquele que tem mais posses do que pode carregar por mais de uma légua é escravo delas, sendo possuído por elas e não o contrário.
  Esta é uma de suas máximas que tem o mais legítimo sabor legionário e adicionalmente  tem um profundo ensinamento ascético que transcende a” res militari”.  Dizia meu avô que seu sogro exigia de seus comandados parcimônia no que levavam para as marchas, ou para os combates, ou para as ações especiais. Considerava que a otimização  da carga estava premida por multipolos objetivos  conflitantes. Dois dos mais importantes eram a quantidade de objetos versus a sua  necessidade  e suficiência. Por outro lado havia que decidir pela qualidade dos objetos e seu custo – benefício... etc...  Em  sua vida, no pós-guerra, sua influência através do exemplo vivo de sua mulher Anna Henriqueta,  ensinou a seus filhos e netos  o hábito de austeridade e economia. Meu pai, que também vinha de uma infância de órfão e de adolescência de seminarista,  endossava integralmente esta regra e a enfatizou com seus filhos, tendo todavia mais sucesso com o primogênito Alfredo que seguiu a carreira militar.
5.       Todos os dias, sem exceção, mantenha o corpo exercitado e treinado nas habilidades essenciais e a mente ativa aguçando  espírito analítico, crítico e decisivo.
Sua preocupação de manutenção de forma física e mental foi certamente transmitida a grande parte de seus descendentes, especialmente os masculinos. No entanto só umas poucas mulheres souberam aderir a esta saudável atitude. Joanna e Iracema foram as únicas que conheci com esta característica. Sabe-se de seus relatos que quando os comandados de José Pedro estavam em preparo para ação seu tempo era dividido entre  prática e técnicas de combate,  exercícios físicos, treinamento  tático e tarefas de apoio a gestão pessoal e da unidade. Seu espírito criativo e inovador o fez  ser um dos pioneiros no Brasil  a usar os balões  para reconhecimento e a treinar soldados em técnicas de construção civil , de equipamentos simples de observação, de sketching e desenho simplificado esquemático de mapas para uso militar. Para alguns de seus comandados a aquisição destas habilidades foram importantes no pós-guerra.  A partir de 1870 afluem para Corte várias correntes migratórias, várias vindas da Europa e outras do Nordeste. As internas eram decorrentes do declínio da açucarocracia a que pertencia o pai de José Pedro Vianna. Essa crise  fez muitos filhos de fazendeiros e negociantes saírem de lá para ocupar posições na Corte.  Vieram também levas e levas de alforriados, pobres livres e veteranos de guerra  que não conseguiam mais se empregar em suas regiões. Todos buscavam um modo de vida no sul e inauguraram uma triste tendência migratória que perdura até hoje. Alguns veteranos foram para o Corpo de Bombeiros, recomendados por José Pedro, ou por recomendação de outros veteranos para a Polícia ou para o próprio Exército. Outros ainda se colocaram com a ajuda de José Pedro em gráficas, e editoras. Por fim, muitos ficaram na Capital e foram os pioneiros construtores e multiplicadores deste skill nas pequenas favelas que surgiram nesta época, em resposta à crise de moradia fartamente reportada pela Inspecção Geral da Higiene.  Esta crise teve três etapas no século XIX. A primeira de cortiçagem – em que com o crescimento do proletariado urbano fez com que a aristocracia abandonasse suas mansões em bairros  desvalorizados. Com isso surgiram os cortiços para uso misto e multi-familiar, com grave prejuízo para a saúde pública. A segunda fase, parcialmente concomitante com a primeira, é de favelização incipiente em que com a lenta  diminuição das possibilidades de cortiçagem, surgem simultaneamente pequenas favelas construídas por alguns veteranos subalternos e seus aprendizes. Esses veteranos disseminam habilidades simples de construção civil e preparam a próxima fase, A terceira fase começa em 26/11/1893, na gestão de Cândido Barata, que  promove a evacuação do famoso cortiço Cabeça de Porco, sito á Rua Barão de São Félix nr 154.  Após 15 anos de resistência de seus habitantes esta remoção provocou o êxodo de 2000 pessoas que  se instalaram no morro do Livramento e se mesclaram mais adiante com veteranos de Canudos que ocuparam  esta região posteriormente.
6.       Quem efetivamente ganha o campo e o dia  é a infantaria. Mas a cavalaria pode ser decisiva se usada com reserva para finalizar o inimigo. Mas ela deve ser usada para ações rápidas - pois os eqüinos se cansam rápido -  e mal feitas – e.g. fulminantemente destrutivas e caóticas. 
Esta foi uma lição aprendida cuja essência universal  foi da maior importância para sua atividade profissional de sucesso e que influenciou muitas outras pessoas na família. Ela pode ser assim compreendida de modo geral: a ação vital ou profissional deve ser governada por método, paciência e denodo típicos de infantes, mas deve ser intercalada ou culminada com lampejos da criatividade anárquicos e destrutivos como os dos ataques de  cavalaria.



Os valores professados por José Pedro podem ser sumarizados conforme o esquema abaixo.



Por ironia seu culto à saúde se limitou à prática de exercícios físicos e  de alguns esportes. Seu tabagismo, no entanto, contribuiu para a deterioração de sua saúde, pois desde o século XVIII, pela desastrosa influência de Rousseau, que valorizava o primitivismo de alguns traços indígenas – como o fumo -  fizeram com que  até o meio do século XX, se julgasse que o fumo poderia ser medicinal e saudável, sendo inclusive culturalmente considerado sinal de elegância. Felizmente, em contrapartida, muitos membros da família aprenderam sua lição e nunca fumaram e, por outro lado, herdaram seu interesse e reconhecimento do papel da tecnologia deixando raízes profundas na família.






Capítulo 5 Ascendentes de Joanna seção 5.4 Relatos da Guerra, Esporte e futebol na família

Através da análise dos episódios que caracterizaram a “questão militar”, é possível entender a importância da Guerra do Paraguai para o desenvolvimento do “segmento profissional” do oficialato do Exército bem como do fim da Guarda Nacional e para a elaboração das críticas por parte de alguns militares nas décadas subseqüentes ao término do conflito. Joaquim Nabuco foi um perspicaz observador dos acontecimentos em pauta; o intelectual  brasileiro afirmou que a guerra contra o Paraguai exerceu grande influência em todos os envolvidos,  inclusive, é claro, na oficialidade do Exército. A Guerra do Paraguai teve importância tão decisiva sobre o nosso destino nacional (...) que se pode ver nela  como que o divisor da história contemporânea. Ela marca o apogeu do Império, mas também procedem dela também as causas principais da decadência e da queda da dinastia: o desenvolvimento do Prata, com  a fascinação que ele exerce, o ascendente militar pelos nomes chamados legendários, pelas reivindicações da  classe, tendo à frente os homens que se deram a conhecer no Exército e que ciosos de seus esforços não aceitaram o descaso dos homens de casaca. Gradualmente, a independência, a iniciativa individual, a crítica  do superior, o modo de interpretar a sujeição, vai-se insinuando na oficialidade. Mas isso era particularmente sentido entre os veteranos da Guarda Nacional, que brevemente iam sentir o amargo gosto da orfandade e do abandono tanto do governo imperial, quanto dos militares em ascensão.

Sena Madureira descrevia este sentimento que grassava tanto no Exército quanto na Guarda Nacional:

“Nós soldados – homens de brio, de coragem –  pelejamos pela pátria nos campos Paraguaios e temos que  nos curvar ao desmando de generais improvisados, que nunca sentiram o cheiro de pólvora e que perpassam rápida e obscuramente pelas altas regiões do poder”.

A Guerra era vista por José Pedro Vianna como uma “Expressão de  patriotismo para defender a honra nacional para qual todo brasileito válido deve contribuir até com o próprio suor e sangue” Por isso se alistou na Guarda Nacional aos 21 anos.



Segundo suas anotações:
 “As despedidas de São Cristóvão para a corte foram entusiásticas e calorosas. Mas as da Corte que encaminharam as tropas para o Sul foram grandiosas.”
E José Pedro Vianna descrevia assim passagens da guerra em várias cartas para diversas pessoas:
“Naquele dia o inimigo estava de tocaia por trás de urzes e arvoredo baixo. Fomos saudados com várias salvas de tiros de fuzis. Zunia o chumbo raspando minha cabeça e rasgando minha farda. Muitos dos nossos se agacharam, mas quando ao ver que haviam parado de atirar, gritei: - ao ataque, todos se aprumaram e avançaram atirando com cobertura de artilharia. Cercamos o inimigo, que estava já bastante castigado, atirando nos que resistiam. Novamente muitos dos nossos retribuíram aos paraguaios a selvageria de que nossas tropas foram vítimas. Só após algum tempo é que o comando da tropa conseguiu  recuperar o controle  e render os sobreviventes. “
......,
“Depois de marchar por pântanos fétidos em que carretas atolavam e só seguiam em frente, lentamente, graças a muito esforço das mulas, a nossa coluna conseguiu desalojar os piquetes do inimigo o que nos custou muitas vidas e horas para atingir um arroio próximo. Para trás via-se muito sangue e corpos despedaçados, para a frente se divisava uma extensa elevação circundada de trincheiras. Essa descrição é certamente fria diante do quadro dantesco que só quem viveu esta realidade pode aquilatar.  A carnificina que se sucedeu é indescritível, o ódio dos bravos que estavam sendo feridos ou vendo seus companheiros mortos era incontido. Desabou-se sobre os pobres paraguaios toda a ira de Mavorte naquele dia quando nossa coluna os derrotou.”

...
“Após muitos dias em marcha, no frio, debaixo de chuva,  tudo que o combatente comum pensa é em sobreviver e encher-se de ódio pelo inimigo. Enfim quando os expedicionários chegaram ao campo, viram que muitos inimigos haviam subido nas árvores circundantes. Eles bradavam seus gritos de guerra em guarani e às vezes em castelhano, acompanhados de batidas de tambor. Os gritos reverberavam pela ravina encharcada e davam a impressão de que a força que tinham era maior do que efetivamente poderiam engajar em combate. Um vento forte acompanhado de chuva fina varria o campo. Nossa força os atacou, sofrendo muitas baixas resultantes da saraiva que vinha das árvores. Todavia isto não reduziu o ímpeto do ataque  e com isso suas linhas no terreno se romperam no flanco esquerdo e logo em seguida no centro. O desespero se instalou nas hostes inimigas, os gritos deles mudaram do tom  bravio e ritmado  inicial para uma algazarra confusa.  Das árvores pulavam agora desordenadamente muitos paraguaios, que se uniam aos que debandavam. Algumas horas após nossas tropas haviam cercado a retaguarda do inimigo. Quando os inimigos se renderam e se entregaram foi impossível conter a fúria dos nossos que matavam a torto e a direito. A tensão pré-combate e o morticínio que sofremos durante a luta desencadearam uma ação destrutiva descontrolada que ensangüentou e tingiu de vermelho o lamaçal da ravina. ”


“O retorno à corte foi emocionante pela recepção organizada aos vencedores. O sentimento era de realização, pelo  sucesso como homem de armas, pela vitória contra o ditador inimigo, pelo cumprimento do dever como brasileiro, pela lavagem da honra nacional, pelo sucesso como homem. Tudo isto e a posterior atuação nos bombeiros, com o reconhecimento da população, eram motivo de orgulho que me levaram ao clímax do casamento com a minha amada e a minorar o sentimento de frustração pela ingratidão dos líderes políticos  e dos militares que não reconheceram a coragem dos bravos soldados da Guarda Nacional que lutaram na Guerra do Paraguai”

“ Nem um filho da puta dos oficiais superiores que conheci morreu em combate para abrir vagas para promoção para os  capitães que se sentiam injustiçados. “

“... e ( referindo-se aos militares do Exército) eles ainda impediam o Corpo de Bombeiros de publicar os agradecimentos da população...”

“... de tanto perseguirem a Guarda ainda vão acabar com ela.”

 O  sentimento de orfandade permeou vários membros da família. Uns porque efetivamente perderam seus pais muito cedo, como Joanna, meu pai e tios paternos e eu mesmo. José Pedro sentiu a orfandade institucional e por isso se identificava com D Pedro II que experimentou todas as orfandades e transmitiu este respeito por este grande e único estadista que teve este país.  No livro de poemas de Tetê há uma poesia de D Pedro d´ Alcantara que expressa este ressentimento partilhado por muitos na família.





O papel dos esportes e do Botafogo na família

O interesse pelos  esportes no mundo começa aos poucos  no fim do século XVIII,  antecipando a onda hedonista do século XX,  visando um equilíbrio  saudável entre o desenvolvimento do do corpo e da mente. Tanto Colégios ingleses, quanto educandários jesuítas estimulam a prática de jogos viris. Na Inglaterra usam como base o folk football. A elite diminui o interesse pelos esportes nobres como: a esgrima, a equitação, a caça, o arco, o salto, e passam a se dedicar a atividades mais populares, resgatando o valor de mens sana in corpore sano.  Entre 1820 e 1870 as public schools  viraram laboratórios de educação física passando a inventar modalidades esportivas  como futebol, rugby, badminton e cricket e projetaram  nos recreation grounds  que ocuparam os espaços públicos vitorianos,
Como o Império Britânico dominou ¼ do planeta, e das Ilhas Britânicas partiu mais de 1/3 da  migração européia entre 1850 e 1890, isto contribuiu para a difusão da cultura inglesa e em particular dos esportes novos.  Como a civilização luso-brasileira era tradicional aliada da Inglaterra recebeu este impacto de maneira assombrosa permeando a sociedade de maneira informal e profunda em muitas camadas sociais. No século XIX, com a vinda da família real,  o  porto do Rio de Janeiro se transformou no mais cosmopolita e mais movimentado destino da América Latina sendo o gateway cultural para as inovações vindas  do exterior. Vinham especialmente os produtos da indústria inglesa, bem como os seus  valores e comportamentos, considerados civilizados, entre os quais, a prática esportiva.
Em 1865, o Cricket Clube solicita à Câmara Municipal do Rio de Janeiro permissão para praticar no Campo da Aclamação um divertimento inglês, "não necessitando para tal fim mais do que alisar o terreno que lhe for demarcado" . Neste campo, o primeiro do Brasil, praticou-se o futebol em caráter amador de forma pioneira, fundando a instituição da pelada. O remo também é praticado na cidade desde pelo menos 1851, quando se funda o grupo "os mareantes".
A difusão do banho de mar terapêutico, inicia também um processo de apropriação da praia como lócus de lazer difundindo a ideologia de morar à beira-mar como estilo de vida moderno. Tanto em Icaraí, quanto em Botafogo e na Praia de Santa Luzia este pioneiros inauguraram o futebol de areia.
Neste movimento, o turfe, também de origem britânica, merece destaque. Em 1850 já existe no Rio de Janeiro uma pista situada entre Benfica e a Quinta da Boa Vista. Segundo Renault, em 1886 já existiam na cidade quatro hipódromos, com 63 páreos semanais e grande movimento de apostas, além de uma revista especializada, "O Jóquei".
O futebol se insere fortemente nesta onda de adesão a uma vida atlética e sã. Este esporte aporta no Brasil no final do século XIX (assim como o basquetebol, o tênis e a natação) e já encontra nas grandes cidades uma cultura esportiva bastante disseminada. Neste sentido, importante notar que muitos clubes de futebol no Rio de Janeiro se originaram de clubes preexistentes, sejam de regatas ( Botafogo de Regatas, C.R. Flamengo, C.R. Vasco da Gama), de crícket (o Paissandu), de ciclismo e corridas a pé (América FC) ou mesmo de extintos clubes excursionistas, como o Botafogo F.C . Curiosamente, este ambiente favorável no Rio de Janeiro, que sempre atuou como lançador de modas no mundo lusófono, que o futebol encontrou para sua aceitação, é freqüentemente ignorado pela historiografia futebolística no Brasil.
Enfim, vimos como a adesão aos esportes se insere na perspectiva de retomada dos espaços públicos e liberalização dos costumes: a ascensão da figura do sportsman, que aposenta o pince-nez e o vestuário pesado para expor publicamente seus músculos. Segundo Luis Edmundo , esta nova geração é bem distinta daquela do Império  e da que proclamou a República, sendo formada de homens lânguidos e raquíticos, sempre enrolados em grossos cache-nez de lã.  
José Pedro Vianna tenta usar o futebol no Corpo de Bombeiros como forma de recreação e é criticado pelos lânguidos e raquíticos militares republicanos . Sua iniciativa é brecada com a sua saída do serviço.


José Pedro, por sua energia e força física assimilou  o espírito esportivo  da época muito naturalmente, o que certamente o afastava do modelo reinante na Corte, bem como do que havia conhecido em Sergipe com a açucarocracia, da qual era descendente. Eis que em virtude das atividades físicas e recreativas que empregara para manter-se em forma na Guerra passou a valorizar passatempos cada vez mais esportivizados. Um deles foi o nascente futebol que havia chegado de forma discreta com os ingleses escoceses e galeses das diversas empresas britânicas presentes no Brasil.
Uma de suas incursões no esporte como lazer foi aproximar-se de um grupo de jovens ingleses apaixonados pela prática de esportes que havia fundado  uma agremiação chamada Rio Cricket Club, que funcionava informalmente desde 1870, num terreno alugado na Rua Berquó (atual General Polidoro), em Botafogo no Rio de Janeiro. Lá eles praticavam não apenas o Cricket, mas também o poona,  o tênis e o Futebol. Como um outro grupo abriu um clube com este nome em Niterói este grupo do Rio adotou posteriormente a denominação de Paissandu Atlético Clube, assim nascendo uma grande rivalidade clubística entre os dois clubes da colônia britânica. Em algumas fontes antigas as partidas entre os dois clubes, nos mais variados esportes, era chamada de Clássico dos Ingleses.  Estas atividades impressionaram não somente José Pedro mas também muitas pessoas na sociedade carioca muito tempo antes da primeira partida de futebol oficialmente realizada no Estado do Rio de Janeiro que aconteceu no campo do Rio Cricket em Niterói em 22 de setembro de 1901. Neste dia o Sr. Oscar Cox, que viria posteriormente a ser fundador e presidente do Fluminense Football Club, atravessou a Baía de Guanabara para enfrentar os praticantes de críquete e tênis do clube inglês..

que os colégios jesuítas do início do século XX adotaram  também o futebol como complemento educacional. A filosofia de ambos na verdade não previu que o futebol se  transformaria num ópio mercantilista no país das abobrinhas.
Este interesse de José Pedro despertou a atenção e a simpatia de Antonio Ferreira da Silva Quintella, meu pai, que já tinha a influência britânica dos seus ancestrais ingleses de Devon: Norton, Warren, Winter e Terry, em seu gosto pelo futebol.  Sua passagem pelas escolas jesuítas em São Paulo reforçaram esta visão de que o futebol era um excelente complemento para a educação e o  lazer. Assim nas décadas de 20 e 30 ele frequentava o Botafogo de Regatas em companhia de jovens esportistas dos quais se destacam dois de seus melhores amigos desta época como Nova Monteiro (futuro médico ortopedista de renome), Augusto Carvalho (fundador do Hotel 3 pinheiros) e mais tarde Vinicius de Morais (inaciano, poeta e diplomata, mas não tão atlético). Isso  o levou a participar como advogado e redator do texto de fusão do Botafogo de Regatas com o de Futebol em 1942. Isto fez com que muitos membros da família ficassem muito ligados a este clube e a atividades esportivas como complemento educativo.
Na visão de meu pai tanto o remo como o futebol deviam ser praticados numa visão olímpica, buscando a excelência e auto superação na prática esportiva em que a vitória não é um fim em si mesma. Adicionalmente o esporte deve ensinar o respeito à autoridade e aos adversários. Algumas práticas comuns hoje no futebol foram condenadas por meu pai quando começaram a ocorrer. Dentre elas destacam-se  a contestação ostensiva dos referees, as comemorações espalhafatosas e provocativas aos adversários, as formas de torcer nas arquibancadas que mais parecem gritos de guerra, a idiotização dos assistentes transformando-os em maltas fanáticas ululantes e violentas que   idolatram falsos heróis, a transformação do esporte em uma atividade com um fim em si mesmo e a mercantilização e corrupção institucionalizadas como forma de sustentação dos clubes.
Extraídos de uma carta de sua lavra em que justifica para os colegas as vantagens da fusão do Botafogo de Regatas com o Futebol alguns trechos são destacados abaixo:
                “Povos modernos como os ingleses e americanos, que se auto-governam usaram o esporte como elemento complementar de  formação do caráter e da educação...”
 “...Ted Roosevelt, quando estava recrutando os Rough Riders em 1898 deu preferência aos  que jogavam futebol. O Duque de Wellington (o general que venceu Napoleão em terra) afirmava que a batalha de Waterloo foi vencida nos campos de futebol de Eton...” “... O histórico das origens do futebol remonta a 3000 anos e permeou muitas civilizações desde o Tsu-chu Chinês, o Kemari Japonês, o epyskiros grego, o tlatchtli azteca,  o harpastum    romano. Mas nenhum interesse antigo por algum jogo de bola, por mais interessante que seja, influenciou o futebol moderno criado na Inglaterra. Nem mesmo o calcio italiano (jogado no dia de São João), o Harlow game medieval ou o Chester Game ( praticado no Shroventide Tuesday-  a terça feira gorda- celebrando a expulsão dos dinamarqueses em    1070) tiveram qualquer relação com as técnicas e regras modernas. Todos estes antecessores esportivos  apenas satisfizeram um impulso natural e infantil de chutar e correr atrás de uma bola. Tal fascinação foi tão grande na Inglaterra que mereceu de    Shakespeare em REI LEAR menção ao vil jogador de futebol...”
Este interesse de meu pai em usar o esporte como complemento da educação, mas não como um fim em si mesmo, influenciou toda a família e fez fãs no Botafogo. E os exemplos vindos de Oxford e Cambridge no Remo e de Eton no futebol serviam de emulação na busca da excelência. 

 
Antonio Ferreira da Silva Quintella que manteve muitos documentos da família nos arquivos e na biblioteca de mais de 10 000 livros que se  manteve no terceiro andar de sua residência da  Alexandre Ferreira 206 desde 1945 até 1975. No sótão havia um centro científico, com Laboratório de Química, Observatório Astronômico e Meteorológico, Kits de Física, Geologia, Oficina de Micromecânica e Relojoaria, Kits da Caça e Pesca,  Bancada maquetes e modelismo aéreo e ferroviário dando continuidade ao pendor para C&T da família e motivando seus parentes para tais atividades. 


Eu  mesmo fui registrado como botafoguense antes de ser batizado ou ter o registro civil como se vê abaixo na Revista do Botafogo de maio de 1946 Ano 4 nr. 58 pgs 8 e 9, neste tempo sob presidencia Adhemar Bebiano. Contudo o interesse em esportes do autor se diversificou conquistando algumas medalhas em futebol, remo, judô e atletismo amadores.




Sem dúvida alguma influência ficou até minha geração pois tive oportunidade de praticar amadoristicamente vários esportes: Judô, Atletismo, Remo, Futebol,Vôlei com algum sucesso olímpico como se pode ver a pequena coleção de medalhas abaixo.




























































 






























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