Cap José Pedro Vianna
Digno Bellatori et
Illustrissimo Viro
Esta saudação acima foi proferida por um dos
oficiais da Guarda Nacional ao condecorar José Pedro Vianna. Foi uma analogia
ao valente Conde Odoário, o repovoador das terras de Chaves e da Galiza
Histórica na idade média, que também era reconhecido por sua bravura. Na ocasião foi mencionado que uma de suas características era seguir o ditado de
que grandes coisas não se fazem por ímpeto, mas pela junção de pequenos atos. Foi
louvada sua dedicação no dia a dia com firmeza, suavidade e determinação, que
com a pertinácia semelhante a de um samurai, conquistou o respeito e papel de líder
das hostes brasileiras. E relembradas
algumas de suas ações, comandos e
hospitalizações reportadas em sua fé de ofício, bem como o louvor do quartel
general por sua calma, bravura e sangue
frio e o louvor de Sua Majestade o Imperador aos oficiais e praças das jornadas
de Dezembro. Este relatório é incompleto pois ele havia combatido em Tuiuti,
Curuzu e Curupaiti em 1866 conforme o diploma da Ordem da Rosa.
Observe-se que os postos e a promoção na Guarda Nacional
Imperial até o posto de capitão eram galgados por eleição na base. Assim José
Pedro, por seu perfil nato de líder alcançou estes postos de comando na Campanha
do Paraguai. Essa sua conquista se deu também por premiação aos comandados,
práticas exemplares em combate, palavras e pensamentos dirigidos aos soldados
que foram expressos em escritos que foram mantidos nos arquivos de minha mãe,
Iracema. Lá descobri algumas reflexões preciosas deste bisavô que ainda me
parecem úteis para quase todas as situações que requerem liderança na vida.
Estes legados de meu bisavô me estimularam sempre a estudar o fenômeno da
liderança e a perseguir pesquisas científicas com alguns de meus melhores
orientados que resultaram em publicações de sucesso.
José Pedro havia preparado uma rotina para seus comandados já que não havia ainda uma n Força Armada Brasileira
que é exibida abaixo em versão reconstituída.
Ele também recriara um código moral baseado no Mos Maiorum romano que o fe muito popular enre os subordinados.
Resgatados alguns tópicos
das suas reflexões, fragmentadas e semi-destruídas, reconstruí seus
pensamentos, adaptando-os à ortografia atual, como estão descritos e comentados a seguir.
1.
Recordem todos
no caminho da espada que o atalho para o coração dos homens se faz através do
estômago.
|
Seu batalhão ainda em Sergipe teve a
influência de um comandante que os doutrinava usando, além dos conhecidos
manuais de instrução da Guarda, um antigo manual dos legionários romanos. Dizia
ele que os avanços tecnológicos recentes, ocorridos na Guerra Civil Americana,
entre 1861 e 1865, haviam tornados obsoletos vários métodos napoleônicos de
combate. Por conseqüência era necessário voltar aos fundamentos para redefinir as formas de atuação em teatros de operação. Isto era ecoado com muito
gosto por toda a força pois Napoleão era odiado nestes meios como um inimigo
execrável.
2.
Cuide
sempre de seu armamento, de seu fardamento, mas sobretudo cuide de seu
calçado. Este deve ser bem ajustado ao pé, com o couro interno mantido o mais
macio possível e curtido. Visite com
freqüência o sapateiro para garantir
que os cravo da sola estejam sempre
novos, sem ferrugem. Mantenha os calçados
sempre bem engraxados para proteger os pés da umidade em conjunto com
algum proteção de papel jornal para os
campos encharcados.
|
Esta recomendação
sobre sapatos foi amplamente encampada por meu pai, Antonio FS Quintella, que
vinha de uma formação jesuíta sólida que enfatizava também este cuidado pessoal
diário. Meu pai, como grande latinista que era, enriquecia esta regra, ressaltando
que os antigos romanos, especialmente para ações de reconhecimento de
terreno – em que José Pedro era
especialista- influenciaram as tropas da
Guarda fazendo com que as solas fossem
ranhuradas a canivete, para evitar derrapagens. As táticas de guerra estavam cada vez mais
tendendo a valorizar a infantaria em detrimento da cavalaria. Por isto estas
anotações de José Pedro eram muito bem recebidas. Diziam seus superiores, que em seu detalhismo solicitava aos
sapateiros do batalhão, algumas vezes, para certas condições do terreno, que
aplicassem travas afiadas, que tinham dupla função. Primeiramente garantir
aderência firme ao solo, bem como aportar tração extra quando o caminho está
saturado de lama ou sangue. Secundariamente poderiam servir como elemento surpresa de
forte impacto perfuro-contundente, tanto no combate, quanto
em desacordos de taberna.
3.
Mantenha sempre o seu uniforme em
ótimo estado e o seu semblante luminoso. Um exército vitorioso tem o
moral, a mente e a aparência sempre dignos
|
Foto do Campo do Lago
Tuiuti, o maior combate da Guerra do Paraguai e da América Latina. em 1866, nos
pântanos e matagais paraguaios após as batalhas do Passo da Pátria e do Estero Bellaco (2 de maio),
e que desequilibrou definitivamente a luta em favor dos aliados, após seis
horas de luta entre cerca de 50 000 combatentes. As baixas paraguaias foram
superiores a 75% (mortos 50%) do
contingente de 24000 e as brasileiras sob comando de Osório em conjunto com
forças da Argentina e Uruguuai sob Mitre e Venancio Flores foram de apenas 15%
de mortos. O campo de batalha era limitado Estero Bellaco ao sul, o Estero
Rojas (onde JoséPedro atuou) e a lagoa
Tuiuti ao norte, uma mata fechada e a Lagoa Pires a oeste, e uma vasta região
pantanosa a leste
4.
Aquele que tem
mais posses do que pode carregar por mais de uma légua é escravo delas, sendo
possuído por elas e não o contrário.
|
Esta é uma de suas máximas que tem o mais
legítimo sabor legionário e adicionalmente
tem um profundo ensinamento ascético que transcende a” res
militari”. Dizia meu avô que
seu sogro exigia de seus comandados parcimônia no que levavam para as marchas,
ou para os combates, ou para as ações especiais. Considerava que a
otimização da carga estava premida por
multipolos objetivos conflitantes. Dois
dos mais importantes eram a quantidade de objetos versus a sua necessidade
e suficiência. Por outro lado havia que decidir pela qualidade dos
objetos e seu custo – benefício... etc... Em sua
vida, no pós-guerra, sua influência através do exemplo vivo de sua mulher Anna
Henriqueta, ensinou a seus filhos e
netos o hábito de austeridade e
economia. Meu pai, que também vinha de uma infância de órfão e de adolescência
de seminarista, endossava integralmente
esta regra e a enfatizou com seus filhos, tendo todavia mais sucesso com o
primogênito Alfredo que seguiu a carreira militar.
5.
Todos os dias,
sem exceção, mantenha o corpo exercitado e treinado nas habilidades
essenciais e a mente ativa aguçando
espírito analítico, crítico e decisivo.
|
Sua preocupação de manutenção de forma física e mental foi
certamente transmitida a grande parte de seus descendentes, especialmente os
masculinos. No entanto só umas poucas mulheres souberam aderir a esta saudável
atitude. Joanna e Iracema foram as únicas que conheci com esta característica.
Sabe-se de seus relatos que quando os comandados de José Pedro estavam em
preparo para ação seu tempo era dividido entre
prática e técnicas de combate,
exercícios físicos, treinamento
tático e tarefas de apoio a gestão pessoal e da unidade. Seu espírito
criativo e inovador o fez ser um dos
pioneiros no Brasil a usar os
balões para reconhecimento e a treinar
soldados em técnicas de construção civil , de equipamentos simples de
observação, de sketching e desenho simplificado esquemático de mapas para uso
militar. Para alguns de seus comandados a aquisição destas habilidades foram
importantes no pós-guerra. A partir de
1870 afluem para Corte várias correntes migratórias, várias vindas da Europa e
outras do Nordeste. As internas eram decorrentes do declínio da açucarocracia a
que pertencia o pai de José Pedro Vianna. Essa crise fez muitos filhos de fazendeiros e
negociantes saírem de lá para ocupar posições na Corte. Vieram também levas e levas de alforriados,
pobres livres e veteranos de guerra que
não conseguiam mais se empregar em suas regiões. Todos buscavam um modo de vida
no sul e inauguraram uma triste tendência migratória que perdura até hoje.
Alguns veteranos foram para o Corpo de Bombeiros, recomendados por José Pedro,
ou por recomendação de outros veteranos para a Polícia ou para o próprio
Exército. Outros ainda se colocaram com a ajuda de José Pedro em gráficas, e
editoras. Por fim, muitos ficaram na Capital e foram os pioneiros construtores
e multiplicadores deste skill nas pequenas favelas que surgiram nesta época, em
resposta à crise de moradia fartamente reportada pela Inspecção Geral da
Higiene. Esta crise teve três etapas no
século XIX. A primeira de cortiçagem – em que com o crescimento do proletariado
urbano fez com que a aristocracia abandonasse suas mansões em bairros desvalorizados. Com isso surgiram os cortiços
para uso misto e multi-familiar, com grave prejuízo para a saúde pública. A
segunda fase, parcialmente concomitante com a primeira, é de favelização
incipiente em que com a lenta diminuição
das possibilidades de cortiçagem, surgem simultaneamente pequenas favelas
construídas por alguns veteranos subalternos e seus aprendizes. Esses veteranos
disseminam habilidades simples de construção civil e preparam a próxima fase, A
terceira fase começa em 26/11/1893, na gestão de Cândido Barata, que promove a evacuação do famoso cortiço Cabeça
de Porco, sito á Rua Barão de São Félix nr 154.
Após 15 anos de resistência de seus habitantes esta remoção provocou o
êxodo de 2000 pessoas que se instalaram
no morro do Livramento e se mesclaram mais adiante com veteranos de Canudos que
ocuparam esta região posteriormente.
6.
Quem
efetivamente ganha o campo e o dia é a
infantaria. Mas a cavalaria pode ser decisiva se usada com reserva para
finalizar o inimigo. Mas ela deve ser usada para ações rápidas - pois os
eqüinos se cansam rápido - e mal
feitas – e.g. fulminantemente destrutivas e caóticas.
|
Esta foi uma lição aprendida cuja essência universal foi da maior importância para sua atividade
profissional de sucesso e que influenciou muitas outras pessoas na família. Ela
pode ser assim compreendida de modo geral: a ação vital ou profissional deve
ser governada por método, paciência e denodo típicos de infantes, mas deve ser
intercalada ou culminada com lampejos da criatividade anárquicos e destrutivos
como os dos ataques de cavalaria.
Por ironia seu culto à saúde se limitou à prática de
exercícios físicos e de alguns esportes.
Seu tabagismo, no entanto, contribuiu para a deterioração de sua saúde, pois
desde o século XVIII, pela desastrosa influência de Rousseau, que valorizava o
primitivismo de alguns traços indígenas – como o fumo - fizeram com que até o meio do século XX, se julgasse que o
fumo poderia ser medicinal e saudável, sendo inclusive culturalmente
considerado sinal de elegância. Felizmente, em contrapartida, muitos membros da
família aprenderam sua lição e nunca fumaram e, por outro lado, herdaram seu
interesse e reconhecimento do papel da tecnologia deixando raízes profundas na
família.
Capítulo
5 Ascendentes de Joanna seção 5.4 Relatos da Guerra, Esporte e futebol na família
Através da análise dos episódios que caracterizaram a “questão militar”,
é possível entender a importância da Guerra do Paraguai para o desenvolvimento
do “segmento profissional” do oficialato do Exército bem como do fim da Guarda
Nacional e para a elaboração das críticas por parte de alguns militares nas
décadas subseqüentes ao término do conflito. Joaquim Nabuco foi um perspicaz
observador dos acontecimentos em pauta; o intelectual brasileiro afirmou que a guerra contra o
Paraguai exerceu grande influência em todos os envolvidos, inclusive, é claro, na oficialidade do
Exército. A Guerra do Paraguai teve importância tão decisiva sobre o nosso
destino nacional (...) que se pode ver nela
como que o divisor da história contemporânea. Ela marca o apogeu do Império,
mas também procedem dela também as causas principais da decadência e da queda
da dinastia: o desenvolvimento do Prata, com
a fascinação que ele exerce, o ascendente militar pelos nomes chamados
legendários, pelas reivindicações da
classe, tendo à frente os homens que se deram a conhecer no Exército e
que ciosos de seus esforços não aceitaram o descaso dos homens de casaca.
Gradualmente, a independência, a iniciativa individual, a crítica do superior, o modo de interpretar a
sujeição, vai-se insinuando na oficialidade. Mas isso era particularmente
sentido entre os veteranos da Guarda Nacional, que brevemente iam sentir o
amargo gosto da orfandade e do abandono tanto do governo imperial, quanto dos
militares em ascensão.
Sena Madureira descrevia este sentimento que grassava tanto no Exército
quanto na Guarda Nacional:
“Nós soldados – homens de brio, de coragem – pelejamos pela pátria nos campos Paraguaios e
temos que nos curvar ao desmando de
generais improvisados, que nunca sentiram o cheiro de pólvora e que perpassam
rápida e obscuramente pelas altas regiões do poder”.
A Guerra era vista por José Pedro Vianna como uma
“Expressão de patriotismo para defender
a honra nacional para qual todo brasileito válido deve contribuir até com o
próprio suor e sangue” Por isso se alistou na Guarda Nacional aos 21 anos.
Segundo suas anotações:
“As despedidas de São Cristóvão para a corte
foram entusiásticas e calorosas. Mas as da Corte que encaminharam as tropas
para o Sul foram grandiosas.”
E José Pedro Vianna descrevia assim passagens da guerra em várias cartas
para diversas pessoas:
“Naquele dia o inimigo estava de
tocaia por trás de urzes e arvoredo baixo. Fomos saudados com várias salvas de
tiros de fuzis. Zunia o chumbo raspando minha cabeça e rasgando minha farda.
Muitos dos nossos se agacharam, mas quando ao ver que haviam parado de atirar,
gritei: - ao ataque, todos se aprumaram e avançaram atirando com cobertura de
artilharia. Cercamos o inimigo, que estava já bastante castigado, atirando nos
que resistiam. Novamente muitos dos nossos retribuíram aos paraguaios a
selvageria de que nossas tropas foram vítimas. Só após algum tempo é que o
comando da tropa conseguiu recuperar o
controle e render os sobreviventes. “
......,
“Depois de marchar por pântanos
fétidos em que carretas atolavam e só seguiam em frente, lentamente, graças a
muito esforço das mulas, a nossa coluna conseguiu desalojar os piquetes do
inimigo o que nos custou muitas vidas e horas para atingir um arroio próximo.
Para trás via-se muito sangue e corpos despedaçados, para a frente se divisava uma
extensa elevação circundada de trincheiras. Essa descrição é certamente fria diante
do quadro dantesco que só quem viveu esta realidade pode aquilatar. A carnificina que se sucedeu é indescritível,
o ódio dos bravos que estavam sendo feridos ou vendo seus companheiros mortos
era incontido. Desabou-se sobre os pobres paraguaios toda a ira de Mavorte
naquele dia quando nossa coluna os derrotou.”
...
“Após muitos dias em marcha, no
frio, debaixo de chuva, tudo que o
combatente comum pensa é em sobreviver e encher-se de ódio pelo inimigo. Enfim
quando os expedicionários chegaram ao campo, viram que muitos inimigos haviam
subido nas árvores circundantes. Eles bradavam seus gritos de guerra em guarani
e às vezes em castelhano, acompanhados de batidas de tambor. Os gritos
reverberavam pela ravina encharcada e davam a impressão de que a força que
tinham era maior do que efetivamente poderiam engajar em combate. Um vento
forte acompanhado de chuva fina varria o campo. Nossa força os atacou, sofrendo
muitas baixas resultantes da saraiva que vinha das árvores. Todavia isto não
reduziu o ímpeto do ataque e com isso
suas linhas no terreno se romperam no flanco esquerdo e logo em seguida no
centro. O desespero se instalou nas hostes inimigas, os gritos deles mudaram do
tom bravio e ritmado inicial para uma algazarra confusa. Das árvores pulavam agora desordenadamente
muitos paraguaios, que se uniam aos que debandavam. Algumas horas após nossas
tropas haviam cercado a retaguarda do inimigo. Quando os inimigos se renderam e
se entregaram foi impossível conter a fúria dos nossos que matavam a torto e a
direito. A tensão pré-combate e o morticínio que sofremos durante a luta
desencadearam uma ação destrutiva descontrolada que ensangüentou e tingiu de
vermelho o lamaçal da ravina. ”
“O retorno à corte foi
emocionante pela recepção organizada aos vencedores. O sentimento era de
realização, pelo sucesso como homem de
armas, pela vitória contra o ditador inimigo, pelo cumprimento do dever como
brasileiro, pela lavagem da honra nacional, pelo sucesso como homem. Tudo isto
e a posterior atuação nos bombeiros, com o reconhecimento da população, eram
motivo de orgulho que me levaram ao clímax do casamento com a minha amada e a
minorar o sentimento de frustração pela ingratidão dos líderes políticos e dos militares que não reconheceram a coragem
dos bravos soldados da Guarda Nacional que lutaram na Guerra do Paraguai”
“ Nem um filho da puta dos
oficiais superiores que conheci morreu em combate para abrir vagas para
promoção para os capitães que se sentiam
injustiçados. “
“... e ( referindo-se aos
militares do Exército) eles ainda impediam o Corpo de Bombeiros de publicar os
agradecimentos da população...”
“... de tanto perseguirem a
Guarda ainda vão acabar com ela.”
O sentimento de orfandade permeou vários membros
da família. Uns porque efetivamente perderam seus pais muito cedo, como Joanna,
meu pai e tios paternos e eu mesmo. José Pedro sentiu a orfandade institucional
e por isso se identificava com D Pedro II que experimentou todas as orfandades
e transmitiu este respeito por este grande e único estadista que teve este país.
No livro de poemas de Tetê há uma poesia
de D Pedro d´ Alcantara que expressa este ressentimento partilhado por muitos
na família.
O papel
dos esportes e do Botafogo na família
O interesse
pelos esportes no mundo começa aos
poucos no fim do século XVIII, antecipando a onda hedonista do século XX, visando um equilíbrio saudável entre o desenvolvimento do do corpo
e da mente. Tanto Colégios ingleses, quanto educandários jesuítas estimulam a prática
de jogos viris. Na Inglaterra usam como base o folk football. A elite diminui
o interesse pelos esportes nobres como: a esgrima, a equitação, a caça, o arco,
o salto, e passam a se dedicar a atividades mais populares, resgatando o valor
de mens sana in corpore sano. Entre 1820 e 1870 as public schools viraram laboratórios
de educação física passando a inventar modalidades esportivas como futebol, rugby, badminton e cricket e
projetaram nos recreation
grounds que ocuparam os espaços públicos vitorianos,
Como o
Império Britânico dominou ¼ do planeta,
e das Ilhas Britânicas partiu mais de 1/3 da migração européia entre 1850 e 1890, isto
contribuiu para a difusão da cultura inglesa e em particular dos esportes novos.
Como a civilização luso-brasileira era
tradicional aliada da Inglaterra recebeu este impacto de maneira assombrosa
permeando a sociedade de maneira informal e profunda em muitas camadas sociais.
No século XIX, com a vinda da família real,
o porto do Rio de Janeiro se
transformou no mais cosmopolita e mais movimentado destino da América Latina sendo
o gateway cultural para as inovações vindas
do exterior. Vinham especialmente os produtos da indústria inglesa, bem
como os seus valores e comportamentos,
considerados civilizados, entre os quais, a prática esportiva.
Em 1865, o
Cricket Clube solicita à Câmara Municipal do Rio de Janeiro permissão para
praticar no Campo da Aclamação um divertimento inglês, "não
necessitando para tal fim mais do que alisar o terreno que lhe for
demarcado" . Neste campo, o primeiro do Brasil, praticou-se o futebol em
caráter amador de forma pioneira, fundando a instituição da pelada. O remo também
é praticado na cidade desde pelo menos 1851, quando se funda o grupo "os
mareantes".
A difusão do
banho de mar terapêutico, inicia também um processo de apropriação da praia como
lócus de lazer difundindo a ideologia de morar à beira-mar como estilo de vida moderno.
Tanto em Icaraí, quanto em Botafogo e na Praia de Santa Luzia este pioneiros
inauguraram o futebol de areia.
Neste
movimento, o turfe, também de origem britânica, merece destaque. Em 1850 já
existe no Rio de Janeiro uma pista situada entre Benfica e a Quinta da Boa
Vista. Segundo Renault, em 1886 já existiam na cidade quatro hipódromos, com 63
páreos semanais e grande movimento de apostas, além de uma revista especializada,
"O Jóquei".
O futebol se
insere fortemente nesta onda de adesão a uma vida atlética e sã. Este esporte
aporta no Brasil no final do século XIX (assim como o basquetebol, o tênis e a
natação) e já encontra nas grandes cidades uma cultura esportiva bastante
disseminada. Neste sentido, importante notar que muitos clubes de futebol no
Rio de Janeiro se originaram de clubes preexistentes, sejam de regatas (
Botafogo de Regatas, C.R. Flamengo, C.R. Vasco da Gama), de crícket (o
Paissandu), de ciclismo e corridas a pé (América FC) ou mesmo de extintos
clubes excursionistas, como o Botafogo F.C . Curiosamente, este ambiente
favorável no Rio de Janeiro, que sempre atuou como lançador de modas no mundo
lusófono, que o futebol encontrou para sua aceitação, é freqüentemente ignorado
pela historiografia futebolística no Brasil.
Enfim, vimos
como a adesão aos esportes se insere na perspectiva de retomada dos espaços
públicos e liberalização dos costumes: a ascensão da figura do sportsman,
que aposenta o pince-nez e o vestuário pesado para expor publicamente
seus músculos. Segundo Luis Edmundo , esta nova geração é bem
distinta daquela do Império e da que
proclamou a República, sendo formada de homens lânguidos e raquíticos,
sempre enrolados em grossos cache-nez de lã.
José Pedro Vianna tenta usar o futebol no Corpo de Bombeiros como
forma de recreação e é criticado pelos lânguidos e raquíticos militares
republicanos . Sua iniciativa é brecada com a sua saída do serviço.
José Pedro,
por sua energia e força física assimilou
o espírito esportivo da época
muito naturalmente, o que certamente o afastava do modelo reinante na Corte,
bem como do que havia conhecido em Sergipe com a açucarocracia, da qual era
descendente. Eis que em virtude das atividades físicas e recreativas que
empregara para manter-se em forma na Guerra passou a valorizar passatempos cada
vez mais esportivizados. Um deles foi o nascente futebol que havia chegado de
forma discreta com os ingleses escoceses e galeses das diversas empresas
britânicas presentes no Brasil.
Uma de suas incursões no esporte como lazer foi
aproximar-se de um grupo de jovens ingleses apaixonados pela prática de
esportes que havia fundado uma
agremiação chamada Rio Cricket Club, que funcionava informalmente desde
1870, num terreno alugado na Rua Berquó (atual General Polidoro), em Botafogo no Rio de Janeiro.
Lá eles praticavam não apenas o Cricket, mas também o poona, o tênis e o Futebol. Como um outro grupo
abriu um clube com este nome em Niterói este grupo do Rio adotou posteriormente
a denominação de Paissandu Atlético Clube, assim nascendo uma grande
rivalidade clubística entre os dois clubes da colônia britânica. Em algumas
fontes antigas as partidas entre os dois clubes, nos mais variados esportes,
era chamada de Clássico dos Ingleses.
Estas atividades impressionaram não somente José Pedro mas também muitas
pessoas na sociedade carioca muito tempo antes da primeira partida de futebol
oficialmente realizada no Estado do Rio de Janeiro que aconteceu no campo do
Rio Cricket em Niterói em 22 de setembro
de 1901.
Neste dia o Sr. Oscar Cox,
que viria posteriormente a ser fundador e presidente do Fluminense Football Club, atravessou a Baía de Guanabara
para enfrentar os praticantes de críquete e tênis do clube inglês..
que os
colégios jesuítas do início do século XX adotaram também o futebol como complemento educacional.
A filosofia de ambos na verdade não previu que o futebol se transformaria num ópio mercantilista no país
das abobrinhas.
Este interesse de José Pedro despertou a atenção e a simpatia de
Antonio Ferreira da Silva Quintella, meu pai, que já tinha a influência
britânica dos seus ancestrais ingleses de Devon: Norton, Warren, Winter e Terry,
em seu gosto pelo futebol. Sua passagem
pelas escolas jesuítas em São Paulo reforçaram esta visão de que o futebol era
um excelente complemento para a educação e o lazer. Assim nas décadas de 20 e 30 ele frequentava
o Botafogo de Regatas em companhia de jovens esportistas dos quais se destacam
dois de seus melhores amigos desta época como Nova Monteiro (futuro médico
ortopedista de renome), Augusto Carvalho (fundador do Hotel 3 pinheiros) e mais
tarde Vinicius de Morais (inaciano, poeta e diplomata, mas não tão atlético).
Isso o levou a participar como advogado
e redator do texto de fusão do Botafogo de Regatas com o de Futebol em 1942.
Isto fez com que muitos membros da família ficassem muito ligados a este clube e
a atividades esportivas como complemento educativo.
Na visão de meu pai tanto o remo como o futebol deviam ser
praticados numa visão olímpica, buscando a excelência e auto superação na
prática esportiva em que a vitória não é um fim em si mesma. Adicionalmente o
esporte deve ensinar o respeito à autoridade e aos adversários. Algumas
práticas comuns hoje no futebol foram condenadas por meu pai quando começaram a
ocorrer. Dentre elas destacam-se a
contestação ostensiva dos referees, as comemorações espalhafatosas e
provocativas aos adversários, as formas de torcer nas arquibancadas que mais
parecem gritos de guerra, a idiotização dos assistentes transformando-os em
maltas fanáticas ululantes e violentas que
idolatram falsos heróis, a transformação do esporte em uma atividade com
um fim em si mesmo e a mercantilização e corrupção institucionalizadas como
forma de sustentação dos clubes.
Extraídos de uma carta de sua lavra em que justifica para os colegas as
vantagens da fusão do Botafogo de Regatas com o Futebol alguns trechos são
destacados abaixo:
“Povos
modernos como os ingleses e americanos, que se auto-governam usaram o esporte como elemento complementar de formação do caráter e da educação...”
“...Ted
Roosevelt, quando estava recrutando os Rough Riders em 1898 deu preferência aos que jogavam futebol. O Duque de
Wellington (o general que venceu Napoleão em terra) afirmava que a batalha de Waterloo foi vencida nos campos
de futebol de Eton...” “... O
histórico das origens do futebol remonta a 3000 anos e permeou muitas
civilizações desde o Tsu-chu
Chinês, o Kemari Japonês, o epyskiros grego, o tlatchtli azteca, o harpastum romano.
Mas nenhum interesse antigo por algum jogo de bola, por mais interessante que seja, influenciou o futebol moderno
criado na Inglaterra. Nem mesmo o calcio italiano (jogado no dia de São João), o Harlow game medieval
ou o Chester Game ( praticado no Shroventide
Tuesday- a terça feira gorda- celebrando
a expulsão dos dinamarqueses em 1070) tiveram
qualquer relação com as técnicas e regras modernas. Todos estes antecessores esportivos
apenas satisfizeram um impulso natural e infantil de chutar e correr atrás de uma bola. Tal
fascinação foi tão grande na Inglaterra que mereceu de Shakespeare em REI LEAR menção ao vil jogador de futebol...”
Este interesse de meu pai em usar o esporte como complemento da
educação, mas não como um fim em si mesmo, influenciou toda a família e fez fãs
no Botafogo. E os exemplos vindos de Oxford e Cambridge no Remo e de Eton no
futebol serviam de emulação na busca da excelência.
Eu mesmo fui registrado como botafoguense antes de ser batizado ou ter o registro civil como se vê abaixo na Revista do Botafogo de maio de 1946 Ano 4 nr. 58 pgs 8 e 9, neste tempo sob presidencia Adhemar Bebiano. Contudo o interesse em esportes do autor se diversificou conquistando algumas medalhas em futebol, remo, judô e atletismo amadores.
Sem dúvida alguma influência ficou até minha geração pois tive oportunidade de praticar amadoristicamente vários esportes: Judô, Atletismo, Remo, Futebol,Vôlei com algum sucesso olímpico como se pode ver a pequena coleção de medalhas abaixo.













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